quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Debate: desemprego e precariedade

Por Daniel Carvalho

No dia 15 de Fevereiro pelas 20:30h, realizou-se, na Biblioteca Municipal Laureano Santos, em Rio Maior, um debate sobre o ‘desemprego e precariedade’ organizado pelo grupo Projeto de Cidadania. Este encontro debruçou-se na discussão de alternativas ao futuro do concelho e do país, na tentativa de combate ao desemprego e à situação desfavorável que tanto preocupa os portugueses.

Apresentado e moderado pelo membro do Projeto de Cidadania e aluno da Escola Secundária de Rio Maior, Rodrigo Gonçalves, a iniciativa contou com a presença de vários oradores: João Paulo Correia, dirigente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa; Célia Colaço, dirigente da União de Sindicatos do Distrito de Santarém; Ricardo Vicente, dirigente da Associação de Combate à Precariedade – Precários Inflexíveis; e Bruna Vicente, deputada ao Parlamento dos Jovens 2013 e aluna da Escola Secundária de Rio Maior. A sessão apresentou-se diversificada nas suas opiniões e inovadora quanto à discussão do futuro laboral que se avizinha, apresentando boas ideias para um maior e melhor aproveitamento da mão de obra portuguesa.

Uma das questões que persegue a massa populacional foi abordada: a troika e as suas políticas aplicadas ao nosso país. Segundo João Paulo Correia, orador nessa noite, “há culpados na gestação da crise” e é visível “a perda de direitos” no panorama atual por culpa dos mesmos. O sistema financeiro mundial é um organismo que falha democraticamente, ou seja, o poder do povo não é soberano. Neste contexto, foi projetado um pequeno filme britânico, apresentado pelo dirigente do SPGL, que satiriza a situação liberal dos mercados americanos, tendo como plano de fundo a memorável crise de 1929.

“Nunca tivemos tanto desemprego como hoje”, comprova-o Ricardo Vicente, dirigente dos Precários Inflexíveis, através de gráficos e dados do Instituto Nacional de Estatística, que, com um tom assertivo, expuseram a real situação do aumento do desemprego em Portugal e em Rio Maior, que, entre as localidades vizinhas é o mais grave! Geraram-se “3 milhões de pobres em Portugal após o Orçamento de Estado aprovado”, sendo uma boa fatia pertencente ao desemprego jovem. Estas políticas resultam de um sistema onde “os interesses financeiros sobrepõem-se aos interesses do povo”, limitando assim a decisão e os direitos dos trabalhadores e da população precária. Assistimos ao “maior assalto à Segurança Social e aos serviços sociais”, e a um país onde o trabalho parcial ultrapassa o trabalho a tempo inteiro: há instabilidade em manter um emprego garantido e com direitos! Situação que apenas é resolvida a partir do “apelo à mobilização social” e através de iniciativas como a Lei contra a precariedade desenvolvida pela Associação de Combate à Precariedade, representada por Ricardo Vicente, orador neste debate.

Durante as 3 horas desta sessão, houve também tempo para refletir sobre o desemprego jovem e a saída de estudantes para o estrangeiro, que é a situação mais comum e certa para muitos após a licenciatura. Bruna Vicente, estudante da Escola Secundária e representante do grupo do Parlamento dos Jovens ‘Os Fixe’, do qual eu e mais três jovens presentes no debate fazem parte, apresentou as medidas propostas pela coletividade para solucionar o tema deste ano: “os jovens e o emprego: que futuro?”. As três medidas passam pelo ‘Projeto Garum’: criação de escolas profissionais privadas para estudantes estrangeiros; a ‘Medida nº 2’: criação de agências empresariais de criação e gestão de part-times para jovens estudantes entre os 16 e os 25 anos de idade; e a ‘Medida nº 3’ que consiste no gozo de benifícios fiscais caso 5 a 10% dessas mesmas empresas fossem constituídas por jovens estudantes. Recebendo várias críticas, boas e más, este debate serviu para ganharmos estabilidade e terreno nos campos da intervenção cívica, no dever da cidadania e na visão dos jovens da crise. “As pessoas têm de ter direito de crescer no próprio país” e não serem obrigados a emigrar devido ao fraco aproveitamento que lhes é proporcionado. Segundo um inquérito feito pelo grupo, apenas 7 em 20 estudantes licenciados querem ficar em Portugal. “É dinheiro investido em estudantes que vão emigrar para fora e vão constituir família no estrangeiro”. “Temos que ter iniciativa (jovens)!”

Foi também debatido o aproveitamento e respetiva projeção dos pequenos negócios agrícolas locais no mercado nacional: “investir na agricultura é uma boa iniciativa de recuperação empresarial portuguesa”. Sugeriu-se ainda neste contexto a criação de uma imagem de marca para os diversos produtos agrícolas riomaiorenses, a questão das pescas e o fomento do papel que os trabalhadores têm no país.

Numa fase final, Célia Colaço, dirigente da União de Sindicatos do Distrito de Santarém, apresentou o lado do setor secundário, especialmente na questão das Carnes Nobre, indústria que pôs em risco cem empregados ao deslocalizar a produção de carne de Sintra para Rio Maior. Quanto às políticas nacionais, Célia Colaço confessa que “os media estão a impor-nos medo e estamos na escravatura dos tempos modernos”; a precariedade no setor secundário é uma realidade: centenas de trabalhadores exercem a profissão sem condições de trabalho, direitos, segurança e altamente carregados com esforço físico acentuado por longas horas. No entanto, e para retorno da miséria e crise social, “os jovens têm potencial, sede de sabedoria e acesso a ela” sendo a nova geração onde a sustentabilidade, a cooperação e o desenvolvimento são desejos que, através da participação democrática e cívica, concretizam as suas ideias e objetivos para um país mais dinâmico.

A noite foi agradável, produtiva e houve uma notória iniciativa democrática e cívica no que toca à participação do público: primeiro porque estiveram presentes pessoas de gerações muito diferentes, assumindo outras realidades; e também porque esta sessão, comparada à do ano anterior, com o mesmo tema e objetivo, reuniu mais do dobro de participantes.

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