domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ruy Belo: um património de Rio Maior que urge valorizar

Ruy Belo (1933-1978)
Por António Costa*

No programa eleitoral do Projecto de Cidadania, apresentado em 2009, dissemos que “acreditamos na riqueza do património de Rio Maior que urge valorizar”.

Dentro desse património uma riqueza maior é sem dúvida o poeta Ruy Belo. Urge valorizar e divulgar mais a sua vida e obra neste concelho onde nasceu. Concelho, terras, o rio, gentes... que está presente na sua poesia.

Na próxima quarta-feira cumprem-se oitenta anos do seu nascimento, em São João da Ribeira. Boa ocasião para trazer aqui algumas palavras suas.

Ruy Belo dizia que via: “primordialmente na arte criação de beleza, construção de objectos tanto quanto possível belos em si mesmos”.

Mas também assumia nos seus poemas: “a problemática de uma consciência que sofre as contradições próprias da sociedade em que vive (...) uma reflexão sobre o próprio poeta e a realidade que o rodeia, (...) uma forma de intervenção, de compromisso, de luta por um mundo melhor”.

Ruy Belo apresentava-se como: “um homem que sente na poesia a sua mais profunda razão de vida mas se sente, simultaneamente, solidário com os outros homens, que talvez tenham dificuldade em compreendê-lo porque houve quem se empenhasse em que não compreendessem, nem pensassem... porque pensar é realmente um perigo, o maior dos perigos. Pensar, pensar como um homem que nasceu livre e quer morrer livre, leva depois inevitavelmente a actuar, a lutar contra qualquer forma de opressão."

Esta sua declaração, ficou inscrita na sociedade ao intervir activamente nas greves académicas de 1962, na oposição ao regime ditatorial, nas listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD), em 1969. Também criticou a guerra no Vietname e escreveu um poema de homenagem a Salvador Allende.

O que levou a que as suas actividades fossem vigiadas e condicionadas pela Polícia Internacional e Defesa do Estado (PIDE). Mas não desistiu de pensar e de actuar.

Obrigado Ruy Belo!

Pela tua poesia.

Pelo teu contributo para a democracia.

* Intervenção proferida na Assembleia Municipal de Rio Maior (sessão de 23/02/2013)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Debate: desemprego e precariedade

Por Daniel Carvalho

No dia 15 de Fevereiro pelas 20:30h, realizou-se, na Biblioteca Municipal Laureano Santos, em Rio Maior, um debate sobre o ‘desemprego e precariedade’ organizado pelo grupo Projeto de Cidadania. Este encontro debruçou-se na discussão de alternativas ao futuro do concelho e do país, na tentativa de combate ao desemprego e à situação desfavorável que tanto preocupa os portugueses.

Apresentado e moderado pelo membro do Projeto de Cidadania e aluno da Escola Secundária de Rio Maior, Rodrigo Gonçalves, a iniciativa contou com a presença de vários oradores: João Paulo Correia, dirigente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa; Célia Colaço, dirigente da União de Sindicatos do Distrito de Santarém; Ricardo Vicente, dirigente da Associação de Combate à Precariedade – Precários Inflexíveis; e Bruna Vicente, deputada ao Parlamento dos Jovens 2013 e aluna da Escola Secundária de Rio Maior. A sessão apresentou-se diversificada nas suas opiniões e inovadora quanto à discussão do futuro laboral que se avizinha, apresentando boas ideias para um maior e melhor aproveitamento da mão de obra portuguesa.

Uma das questões que persegue a massa populacional foi abordada: a troika e as suas políticas aplicadas ao nosso país. Segundo João Paulo Correia, orador nessa noite, “há culpados na gestação da crise” e é visível “a perda de direitos” no panorama atual por culpa dos mesmos. O sistema financeiro mundial é um organismo que falha democraticamente, ou seja, o poder do povo não é soberano. Neste contexto, foi projetado um pequeno filme britânico, apresentado pelo dirigente do SPGL, que satiriza a situação liberal dos mercados americanos, tendo como plano de fundo a memorável crise de 1929.

“Nunca tivemos tanto desemprego como hoje”, comprova-o Ricardo Vicente, dirigente dos Precários Inflexíveis, através de gráficos e dados do Instituto Nacional de Estatística, que, com um tom assertivo, expuseram a real situação do aumento do desemprego em Portugal e em Rio Maior, que, entre as localidades vizinhas é o mais grave! Geraram-se “3 milhões de pobres em Portugal após o Orçamento de Estado aprovado”, sendo uma boa fatia pertencente ao desemprego jovem. Estas políticas resultam de um sistema onde “os interesses financeiros sobrepõem-se aos interesses do povo”, limitando assim a decisão e os direitos dos trabalhadores e da população precária. Assistimos ao “maior assalto à Segurança Social e aos serviços sociais”, e a um país onde o trabalho parcial ultrapassa o trabalho a tempo inteiro: há instabilidade em manter um emprego garantido e com direitos! Situação que apenas é resolvida a partir do “apelo à mobilização social” e através de iniciativas como a Lei contra a precariedade desenvolvida pela Associação de Combate à Precariedade, representada por Ricardo Vicente, orador neste debate.

Durante as 3 horas desta sessão, houve também tempo para refletir sobre o desemprego jovem e a saída de estudantes para o estrangeiro, que é a situação mais comum e certa para muitos após a licenciatura. Bruna Vicente, estudante da Escola Secundária e representante do grupo do Parlamento dos Jovens ‘Os Fixe’, do qual eu e mais três jovens presentes no debate fazem parte, apresentou as medidas propostas pela coletividade para solucionar o tema deste ano: “os jovens e o emprego: que futuro?”. As três medidas passam pelo ‘Projeto Garum’: criação de escolas profissionais privadas para estudantes estrangeiros; a ‘Medida nº 2’: criação de agências empresariais de criação e gestão de part-times para jovens estudantes entre os 16 e os 25 anos de idade; e a ‘Medida nº 3’ que consiste no gozo de benifícios fiscais caso 5 a 10% dessas mesmas empresas fossem constituídas por jovens estudantes. Recebendo várias críticas, boas e más, este debate serviu para ganharmos estabilidade e terreno nos campos da intervenção cívica, no dever da cidadania e na visão dos jovens da crise. “As pessoas têm de ter direito de crescer no próprio país” e não serem obrigados a emigrar devido ao fraco aproveitamento que lhes é proporcionado. Segundo um inquérito feito pelo grupo, apenas 7 em 20 estudantes licenciados querem ficar em Portugal. “É dinheiro investido em estudantes que vão emigrar para fora e vão constituir família no estrangeiro”. “Temos que ter iniciativa (jovens)!”

Foi também debatido o aproveitamento e respetiva projeção dos pequenos negócios agrícolas locais no mercado nacional: “investir na agricultura é uma boa iniciativa de recuperação empresarial portuguesa”. Sugeriu-se ainda neste contexto a criação de uma imagem de marca para os diversos produtos agrícolas riomaiorenses, a questão das pescas e o fomento do papel que os trabalhadores têm no país.

Numa fase final, Célia Colaço, dirigente da União de Sindicatos do Distrito de Santarém, apresentou o lado do setor secundário, especialmente na questão das Carnes Nobre, indústria que pôs em risco cem empregados ao deslocalizar a produção de carne de Sintra para Rio Maior. Quanto às políticas nacionais, Célia Colaço confessa que “os media estão a impor-nos medo e estamos na escravatura dos tempos modernos”; a precariedade no setor secundário é uma realidade: centenas de trabalhadores exercem a profissão sem condições de trabalho, direitos, segurança e altamente carregados com esforço físico acentuado por longas horas. No entanto, e para retorno da miséria e crise social, “os jovens têm potencial, sede de sabedoria e acesso a ela” sendo a nova geração onde a sustentabilidade, a cooperação e o desenvolvimento são desejos que, através da participação democrática e cívica, concretizam as suas ideias e objetivos para um país mais dinâmico.

A noite foi agradável, produtiva e houve uma notória iniciativa democrática e cívica no que toca à participação do público: primeiro porque estiveram presentes pessoas de gerações muito diferentes, assumindo outras realidades; e também porque esta sessão, comparada à do ano anterior, com o mesmo tema e objetivo, reuniu mais do dobro de participantes.

Arquivo do blogue